Intervista 23. Escritablog

ENTREVISTA A JULIO CESAR MONTEIRO MARTINS

PARA «ESCRITABLOG» – SETEMBRO DE 2014

1) Quais foram suas inspirações para escrever os livros “Torpalium” e “Sabe quem dançou”, que fizeram tanto sucesso no Brasil?

Sinceramente, não acredito em “inspiração”. Assim como a idéia di “gênio”ou as versões modernas de “musa inspiradora” são mitos persistentes, criadas durante o Romantismo europeu, no período do Sturm Und Drang, quando se tentava revestir o artista de uma aura de semi-deuses. Após aquele período veio a psicanálise, a descoberta cosfiguraçoes imaginárias e das fantasmagorias do inconsciente e o conhecimento a respeito do ato da criação se tornou mais profundo, todavia no ambiente artístico e literário esses mitos são duros de morrer, talvez porque convenha que permaneçam ativos para conferir um status especial a quem se crê contemplado pelo “dom” e pela “iluminação” da criatividade, pelos favores dos deuses.

Os dois livros que você mencionou, escritos em 1976 e 1977 respectivamente, são frutos do olhar de uma nova geração sobre os horrores daquela fase da história latino-americana, um olhar que não era desiludido ou ferozmente indignado como o da geração precedente à minha, mas sim irônico, debochado, através do qual o deboche ocupava o lugar das denúncias. Eram livros leves, divertidos, mas com uma carga de desmoralização do poder militar de grande eficiência. O meu romance “Artérias e Becos”, de 1978, era ele também impregnado deste espírito burlesco. Na verdade, o livro “mãe” daquela nova tendência, o livro que apresentou aos brasileiros esta geração da qual não se esperava nada além da inócua “alienação”, foi antologia de contos organizada pelo Pasquim em 1976, “Histórias De Um Novo Tempo”, com contos meus, do Caio, do Domingos, do Barreto, di Jefferson e do Emediato. A saída deste livro nas livrarias e nas bancas de jornais foi uma surpresa, um verdadeiro choque, para um público e uma crítica que ainda não conheciam o que se escrevia abaixo dos 25 anos de idade.

2) Você ainda costuma ler livros brasileiros ou se focou mais nas obras europeias?

Na verdade leio mais livros brasileiros hoje do que na época em que vivia no Brasil. Primeiramente porque os amigos e os autores me enviam as novidades, depois porque dirijo uma revista na Itália, a “Sagarana”, que publica entre outras coisas traduções em italiano de textos brasileiros e portugueses, e enfim porque todas as editoras daqui que publicam um autor brasileiro traduzido mandam um exemplar do livro à Sagarana para ver se publicamos um brano como divulgação. Assim, sigo bem de perto o que publica no Brasil, de autores novos ou de reedições, desde 1995 quando cheguei à Itália, a hoje. Como exemplo deste último tipo foi publicada em Roma uma ótima antologia do conto brasileiro contemporâneo chamada “Il Brasile per le strade” (O Brasil Pelas Ruas), uma seleção inteligente de Silvia Marianecci, que inclui um conto meu traduzido, “Manuelito”, extraído do “A Oeste De Nada”.

Você provavelmente quer saber quais são os livros recentes que li com maior prazer (o que não quer dizer que sejam livros perfeitos). Um é o romance “Qualquer Maneira de Amar” de Marcus Veras, um livro ambientado nos anos de chumbo que equilibra muito bem o aspecto existencial, psicológico, do personagem central, que é uma síntese do seu tempo, com a dimensão política e o momento histórico do final dos anos ’60. Outro é o romance “Ausência”, de Flavia Cristina Simonelli, que trata com delicadeza de um tema pouco visitado: o Mal de Alzheimer, a perda de memória nos anciãos. Um outro é a reedição de “Sabor de Química”, de Roniwalter Jatobá, que se aproxima do núcleo dos problemas da sociedade brasileira.

3) Em entrevista para a Cecília Prada, você diz que as obras publicadas do final da Ditadura até hoje, “são textos débeis, piegas, um pensamento frágil e superficial, lugares-comuns”. Você acredita que os textos publicados non últimos anos também são assim ou acha que as obras recentes alcançaram novos patamares?

Cada obra literária é filha do seu tempo, dos valores e das transgressões que predominam, das prioridades coletivas. Assim, a literatura brasileira reflete hoje uma visão aguada do real, uma sensibilidade desbotada para o drama humano. Não importa se muitos títulos novos são impregnados de violência, de selvageria suburbana, estas são retratadas como nas histórias-em quadrinhos, iconicamente, faltando só os balões com Plaff! Vapt! Slash! Brumm! Como se sabe, se a violência é descrita em modo manierista, só para “chocar a burguesia”, o drama está ausente, substituído por uma forma caricata sem um conteúdo de verdade, e o leitor de longo curso sente muito bem a diferença.

Algo semelhante ocorre nas obras intimistas, che se esforçam em apresentar uma densidade existencial, um mergulho nos meandros da mente, para os quais o autor não está preparado. O resultado são imitações ralas de Clarice Lispector, de Lúcio Cardoso ou de Cecilia Meireles. A minha impressão é que, depois de 30 anos de trash exotérico e banalidades açucaradas, se perderam os pontos de referência do que é excelência literária, que eram bem nítidos e naturais quando foram escritas obras como “Vidas Secas”, “Quarup”, “Feliz Ano Novo”, “Malagueta, Perus e Bacanaço” (um romance-em-contos russo como as obras de Gogol, Tchekov ou de Gorky), de “A Festa”, de “Homem Vermelho”, de “A Hora da Estrela” ou de “O Sono Provisório”. Para atingir este nível, recuperá-lo, serão necessárias experiências de dor real, de empatia com os que sucumbem, de pânico, de êxtase, de raiva civil, experiências prolongadas e severas. Como escreveu Miguel Torga na sua auto-biografia “Criação do Mundo”, “a literatura é fruto de uma certa densidade psíquica adquirida”.

4) Após sair do Brasil, você passou por diversos países como Estados Unidos e Japão, quais motivos te levaram a escolher a Itália para morar de vez e se estabilizar?

Não foi uma escolha consciente, planejada. Eu ensinava na Universidade Nova de Lisboa quando conheci a Cristiana, uma italiana de Lucca que fazia o projeto Erasmus em Portugal. Vim para a Itália para esposá-la e um ano depois nasceu nosso filho Lorenzo, que hoje é um homem. A Universidade de Pisa, sabendo que eu estava vivendo aqui, convidou-me para dar um ciclo de conferências sobre a Identidade Brasileira, e em seguida para ensinar Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e Tradução Literária, e lá estou já há quase vinte anos.

Talvez a pergunta verdadeira deveria ser não por quê eu fui para a Itália, mas por quê fui obrigado a deixar o Brasil e a viver como um exilado no exterior. É esta a chave da questão, que interessa a todos os escritores brasileiros, esta forma moderna, brutal, silenciosa e anônima de exílio cultural, sobre o qual não se escreve una linha, nunca, no Brasil.

5) Como surgiu a ideia de criar a Revista Online Sagarana?

No final dos anos ’90 cheguei à conclusão que o mundo cultural italiano estava se tornando anacrônico, provinciano e isolado do que se estava fazendo fora, apesar de figurar como sempre como protagonista das artes no resto do mundo. A Itália, geograficamente, já é quase uma ilha, e impera aqui uma tendência conservadora, de preservação das formas tradicionais e de aversão a formas estranhas à sua própria tradição. É o falso conforto de evitar o novo fingindo de ignorá-lo. Era o momento de criar uma revista de leteratura (e não só) mundial, que colocasse a produção cultural italiana em igualdade de condições (e de espaço editorial) com a de outras nações, como o mundo germânico, a Índia, o Brasil, a Rússia, os Estados Unidos dos imigrantes e dos latinos, os novos autores japoneses e espanhóis, a efervecência literária da África sub-sahariana. O projeto da revista Sagarana revelou-se um sucesso, pelo seu ineditismo e pela abertura que trazia, uma lufada de ar fresco num ambiente asfixiante.

A revista, com as suas edições trimestrais, nasceu em 1999 e está completando 15 anos de existência ativa. Atravessou momentos dramáticos como o 11 de setembro e a carnificina do G-8 de Gênova, assim como toda a longa era do berlusconismo, contra o qual, junto a grandes escritores como Antonio Tabucchi, Gianni Vattimo, Dario Fo e Erri de Luca, costituíamos a única resistência possível, um contraveneno para a informação totalmente controlada pelo Estado e pela força econômica e mediática das empresas do Caimano (o jacaré, feroz e onívoro).

6) Como você encara as situações política e econômica atuais do Brasil, após tantos anos vivendo um país teoricamente mais avançado?

Este è um assunto interminável, é a nostra esfinge edipiana, o Brasil. Mas me limitarei a falar de um único problema, que me parece importante. Desde o período da hiperinflação e do plano Cruzado, talvez por causa do trauma coletivo, passando logo em seguida ao confisco di Plano Collor e aos suicídios, que o discurso brasileiro é dominado pelo jargão dos economistas. Um país milagroso e complexo como o Brasil reduzido a cifras e percentuais, a expectativas de zero punto alguma coisa por cento para cima ou para baixo do PIB ou da Balança Comercial. Esquerda e direita, todos entraram nesse pensamento único, na matematização do mundo, que esconde muito mais do que revela. Os economistas em geral não são sábios, são técnicos. Um país com problemas crônicos como o Brasil, todavia, precisa de sábios, de inteligência viva e abrangente, para poder intervir no coração do problema, que não é economico, mas cultural, de visão de mundo, de um grandioso projeto de civilização como queria Darcy Ribeiro, de mudança completa dos parâmetros éticos, de uma educação que reconstrua com nitidez a fronteira entre público e privado. Há décadas se pensa só ao bolso e se esconde a alma. A alma do país está desorientada, é irreconhecível, a sua autoimagem está borrada, fora de foco, basta ver o que vem acontecendo com a música popular, o cinema que não propõe mais nada de revolucionário, não experimenta nada, a irrelevância da imprensa cultural e o baixo nível das discussões, mais celebrativas que questionadoras, com o nepotismo na cultura e na arte, os filhos que herdam o sobrenome dos pais famosos e promovidos pelos seus amigos, que dominam como se a nossa cultura fosse um feudo rural de coronéis próprio numa área em que somente o talento deveria servir de medida. Sem falar de aspectos ainda mais graves, o voyeurismo della morte e dos cadáveres, a sua banalização, o sexo anônimo, mercantilizado (vejam o caso da venda em leilão da virgindade ou as danças focalizadas nos genitais ou ainda os filmes com protagonistas prostitutas-heroínas). E tudo isto nos últimos 30 anos, uma decadência explicita e orgulhosa de si mesma, que de Pixinguinha, da Bossa Nova e das canções dos festivais da Record nos trouxe ao “passinho” e às obscenas letras do funk. De “Deus e o Diabo na Terra do Sol” à biografia de Hebe Camargo! E digam o que disserem os economistas dos “bilhões de reais”, da concreteza e da hegemonia dos “investimentos” e do “gosto do público”, a verdade é que não se faz um país assim. Não será vendendo mais carne e mais frangos aos russos que o mistério Brasil será revelado e transformado.

7) Você tem vontade de voltar algum dia a morar no Brasil?

Esta pergunta mexe com questões profundas, com os traumas produzidos pelas escolhas que fiz durante a minha vida, entre as quais mudar de país para não permitir que a minha literatura sucumbisse. Na verdade não havia escolhas, havia a imposição inflexível das circunstâncias de 25 anos atrás. Voltaria sim, para conferências, laboratórios, lançamento dos meus livros, mas não para viver. A minha vida é toda aqui. Os meus filhos, o meu trabalho, a minha casa. Não posso ausentar-me da Itália por mais do que um par de meses. Sou consciente de que o Brasil muda muito rapidamente, ao contrário da Europa, e que o Brasil que encontraria depois de tão longo exílio seria totalmente diverso daquele que deixei. Duas gerações de brasileiros são passadas enquanto eu estava ausente. Provavelmente seria um encontro com pessoas novas, não muito diverso daquele que teria hoje no Canadá, na Turquia ou na Índia. Se não voltar ao Brasil com este tipo de consciência, não de autor “histórico” ou mesmo “póstumo” (a nossa nota biográfica tem odor de epitáfio), mas de autor nascente, corro o risco de decepcionar-me, de ter a lúgubre sensação de reabrir a minha tumba para olhar dentro o que restou.

Se o Brasil me avesse amato como eu sempre o amei, tudo teria sido diferente. Se os brasileiros tivessem se apaixonado pela visão do projeto de país que cultivei com grande ardor desde os tempos em que escrevi “O Livro das Diretas”, eu provavelmente não teria tido motivos para deixar o país. Veja, eu passei uma vida inteira me preparando para oferecer aos meus leitores o melhor que podia, e penso que valeu a pena, mas agora me sobra pouco tempo para fazer tudo aquilo que deveria fazer, para apresentar o resultado dessa longa preparação humana e literária. Mas temo que sejam pensamentos inúteis, porque o Brasil não reabriria uma porta que ele mesmo fechou: o degredo aqui é coisa seria, pense a Cláudio Manuel da Costa ou a Gonçalves Dias… O ostracismo brasileiro, se não é aquele institucional, reconhecido pelos adversários políticos, como o dos anos ’70, não tem fim, não tem prazo de decadência (o da Grécia antiga durava somente dez anos). O Brasil da parte sua não conhece anistia nem percurso. Não acompanha a existência de quem teve que viver fora das fronteiras. Transforma-o em um autor póstumo e basta. Às vezes nem isso. No meu caso, tento administrar esta forma de banimento informal, tácito,  como posso, renascendo em outra parte do mundo, e per fortuna com reconhecimento do valor da minha obra, sempre escrevendo as minhas histórias, que são a essência e o sentido da minha vida.

8) Você se lembra de quando e por que tomou a decisão de escrever profissionalmente?

Minha mãe era uma professora de literatura e lia para mim, em voz alta, os livros que estudava para as aulas da universidade antes mesmo que eu aprendesse a ler. Foi uma paixão precoce, mais pelo “som” da literatura que pela própria literatura. Aos treze anos já escrevia poesias de conteúdo político. Eram os anos da luta pelos Direitos Civis nos Estados Unidos, e logo em seguida chegou o milagroso ano de 1968, quando a cultura do século fez uma torção de 180 graus em torno do seu eixo ocidental. Tive sorte de ter vivido aquela época como um adolescente curioso, fascinado com todas aquelas transformações e novidades. Quando entrei na universidade (Direito na Cândido Mendes à tarde e à noite Cinema na UFF, onde fui aluno do Nelson Pereira dos Santos) já sabia que seria um escritor. Terminei Direito, passei no Concurso da Ordem e no mesmo dia aposentei o diploma. Foi quando saíram publicadas as “Histórias de um Novo Tempo”, o “Torpalium” e o “Sabe Quem Dançou?”. Assim, os dados foram lançados muito cedo, naqueles anos. E hoje, 40 anos depois, ainda estão girando sobre o pano verde e eu não tenho a menor idéia dos números que sairão.